Isaías 7:14 não profetizou a gravidez de Maria e a vinda de Jesus?

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Você Pergunta: Presbítero, a profecia de Isaías 7:14 trata de uma virgem que conceberá um filho. Muitas pessoas aplicam esse texto, obviamente, a Maria, ao engravidar pelo poder do Espírito Santo. Porém, já ouvi dizer que a palavra hebraica em Isaías 7:14 não significa ‘virgem’, mas sim ‘jovem’ ou ‘moça’. Essa observação está correta?

Quando lemos os Evangelhos, percebemos que tanto Mateus quanto Lucas apresentam o nascimento virginal de Jesus como o cumprimento da famosa profecia de Isaías 7:14.

Eles afirmam que Jesus nasceu de uma virgem, concebido pelo poder do Espírito Santo. Porém, muitos questionam isso com base na palavra hebraica usada por Isaías e no contexto da profecia.

Talvez você mesmo já tenha ouvido algo parecido: “A palavra hebraica usada por Isaías não significa ‘virgem’, mas apenas ‘jovem’ ou ‘moça’. Portanto, Mateus teria interpretado o texto de forma equivocada.”

Essa afirmação parece forte. Afinal, se fosse verdadeira, não comprometeria uma das profecias mais conhecidas sobre o nascimento de Cristo?

Mas será que essa crítica realmente faz sentido?

Antes de aceitarmos uma conclusão tão séria, precisamos fazer aquilo que todo bom estudante da Bíblia deve fazer: voltar ao texto original, analisar o contexto e comparar as Escrituras. É exatamente isso que faremos juntos.

Veja como Mateus registra o cumprimento dessa profecia:

“Ora, tudo isto aconteceu para que se cumprisse o que fora dito pelo Senhor por intermédio do profeta: Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, e ele será chamado pelo nome de Emanuel (que quer dizer: Deus conosco).” (Mateus 1:22-23)

Será que Mateus desconhecia o hebraico? Será que ele simplesmente alterou o sentido da profecia? Ou existe algo muito mais profundo por trás dessa discussão?

Ao final deste estudo você perceberá que essa questão envolve muito mais do que a tradução de uma única palavra! Você é daqueles que têm dificuldades de entender um texto bíblico, seu contexto e fazer aplicações? Eu criei o Método Texto na Tela para te ajudar abrir qualquer texto e entendê-lo! Veja aqui como esse Método funciona

O que Mateus e Lucas entenderam sobre a profecia de Isaías?

Antes mesmo de analisarmos o texto hebraico de Isaías, vale a pena observar um detalhe muito importante: qual palavra os evangelistas (Mateus e Lucas) escolheram ao escrever seus relatos? Mas, ainda antes disso, temos uma informação importante:

Cerca de dois séculos antes do nascimento de Jesus, estudiosos judeus traduziram o Antigo Testamento do hebraico para o grego, produzindo a famosa tradução Septuaginta (LXX).

Ao chegarem em Isaías 7:14, eles escolheram justamente a palavra grega parthenos, que significa “virgem”. Isso é extremamente significativo, pois essa tradução foi feita muito antes do surgimento do cristianismo.

Ou seja, não foram os cristãos que “inventaram” esse entendimento para aplicá-lo a Jesus. Judeus que conheciam profundamente o hebraico já haviam entendido que, naquele contexto, a melhor tradução era “virgem”.

Quando Mateus cita Isaías 7:14, ele utiliza a palavra grega parthenos. Essa palavra possui um significado bastante específico. Ela descreve uma virgem, isto é, uma mulher que nunca teve relações sexuais com um homem.

Lucas faz exatamente a mesma escolha ao narrar o anúncio do anjo Gabriel a Maria. Em seu relato, Maria também é chamada de parthenos, deixando claro que sua gravidez aconteceria de forma sobrenatural.

Isso é extremamente relevante para nossa compreensão!

Os dois escritores, de maneira totalmente independente, entenderam que a profecia apontava para uma virgem e não simplesmente para uma jovem em idade de casar.

Aqui surge uma pergunta inevitável:

Será que Mateus e Lucas, ambos profundamente familiarizados com as Escrituras judaicas e com o grego, desconheciam o significado da palavra usada por Isaías? Será que cometeram um erro tão grave justamente ao explicar o nascimento do Messias? Ou, pior ainda, será que tentaram enganar seus leitores?

Essa hipótese parece pouco razoável ao analisarmos todo o contexto! Na verdade, antes de concluirmos qualquer coisa, precisamos examinar cuidadosamente o texto original de Isaías.

O que significa a palavra hebraica usada por Isaías?

A profecia de Isaías diz o seguinte:

“Portanto, o Senhor mesmo vos dará um sinal: eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho e lhe chamará Emanuel.” (Isaías 7:14)

A palavra hebraica traduzida como “virgem” nesse texto é ‘almah.

Segundo o Léxico Hebraico de Strong (um dicionário conceituado das palavras nos originais da Bíblia), esse termo pode apresentar os seguintes sentidos:

1) virgem, mulher jovem. 1a) em idade para casamento. 1b) moça ou recém-casada.

Perceba que a própria definição desse dicionário não exclui a ideia de virgindade. Pelo contrário, ela a inclui entre seus significados principais.

É justamente aqui que muitas discussões acabam sendo simplificadas demais.

Algumas pessoas afirmam categoricamente que ‘almah significa apenas “jovem” ou “moça”. Outras dizem que significa exclusivamente “virgem”. Mas o funcionamento da língua hebraica é mais rico do que isso.

Assim como acontece em muitas palavras do português, o significado exato depende do contexto em que ela aparece.

Diversos comentaristas entendem que Isaías apresenta aqui uma profecia de duplo cumprimento.

O primeiro cumprimento estaria relacionado aos dias do rei Acaz. Naquele contexto histórico, uma jovem, naturalmente virgem e em idade de casamento, conceberia um filho que serviria como sinal para aquele momento específico da história de Judá.

Mas a profecia também apontaria para um cumprimento muito maior no futuro: o nascimento do Messias. E isso é bastante claro na revelação progressiva de Deus, já que isso se cumpre na vida de Maria!

Essa compreensão explica por que Mateus aplica Isaías diretamente ao nascimento de Jesus sem considerar que estivesse distorcendo o texto.

O contexto mostra qual sentido deve ser escolhido

Quando uma palavra possui mais de um significado possível, quem resolve essa questão não é um dicionário isoladamente. É o que chamamos de contexto.

E o contexto de Isaías 7:14 fornece uma pista extremamente importante.

O profeta declara que Deus daria um sinal ao seu povo. Essa palavra muda completamente nossa forma de enxergar a passagem.

Vamos pensar juntos: Se Isaías estivesse apenas dizendo que uma jovem engravidaria após se casar, onde estaria o sinal claro e identificável prometido por Deus?

Todos os dias jovens engravidavam em Israel. Isso não representaria absolutamente nada de incomum. Não haveria qualquer elemento extraordinário capaz de justificar a palavra “sinal”.

Por outro lado, imagine o impacto de uma jovem virgem concebendo um filho sem relacionamento com um homem. Agora, sim, temos algo completamente excepcional. Temos um acontecimento sobrenatural que só Deus poderia realizar.

Temos exatamente aquilo que um sinal divino deveria representar. O próprio contexto, portanto, favorece fortemente o entendimento de que Isaías estava apontando também para algo muito além de uma gravidez comum, o que se encaixa na forma como a profecia foi compreendida pelos escritores do Novo Testamento!

Mateus, Lucas e os tradutores da Bíblia poderiam ter errado?

Depois de analisar o significado da palavra ‘almah, observar o contexto da profecia e verificar como os escritores do Novo Testamento entenderam esse texto, a conclusão se torna bastante consistente.

Isaías não escreveu uma profecia equivocada. Os judeus que produziram a Septuaginta (LXX) não se equivocaram. Mateus não interpretou o texto de forma errada. Lucas também não cometeu qualquer engano ao narrar o nascimento de Jesus.

E os tradutores das principais versões da Bíblia para o português também não erraram ao traduzirem essa palavra em Isaías 7:14 como “virgem”.

Isso não significa que a palavra hebraica nunca possa se referir a uma jovem. Como vimos, ela possui um campo semântico mais amplo. O problema é afirmar que necessariamente ela significa apenas “jovem” ou “moça” e, por isso, invalidaria a interpretação messiânica do Novo Testamento.

Essa conclusão simplesmente não encontra apoio sólido. Primeiro, porque a própria palavra no original admite o sentido de “virgem”. Segundo, porque o contexto fala de um sinal dado por Deus, algo que aponta para um acontecimento extraordinário.

Terceiro, porque os autores inspirados do Novo Testamento entenderam que essa profecia encontrava seu pleno cumprimento no nascimento sobrenatural de Jesus Cristo.

Na verdade, se aceitássemos a ideia de que Isaías falava apenas de uma gravidez comum, a palavra “sinal” perderia praticamente toda a sua força. Afinal, uma jovem engravidar após o casamento sempre foi algo absolutamente normal.

Mas uma virgem conceber por obra do Espírito Santo é um acontecimento único em toda a história desde o início do mundo. É exatamente isso que os Evangelhos apresentam.

Conclusão

Sim, é verdade que a palavra hebraica ‘almah pode, em determinados contextos, referir-se a uma jovem em idade de casamento. Entretanto, isso não elimina o sentido de “virgem”, que também faz parte de seu significado lexical.

Quando analisamos Isaías 7:14 em seu contexto, observamos que Deus promete um sinal. Uma gravidez comum dificilmente poderia ser considerada um sinal desse tipo. Em contrapartida, o nascimento de um filho por uma virgem que nunca se deitou com nenhum homem se encaixa perfeitamente na natureza miraculosa da promessa.

Além disso, Mateus e Lucas não deixam qualquer margem para dúvida. Ambos empregam a palavra grega parthenos, cujo significado é claramente “virgem”, e aplicam essa profecia diretamente ao nascimento de Jesus Cristo.

Assim, a tradução “virgem” permanece plenamente justificada. Ela respeita o significado possível da palavra hebraica, harmoniza-se com o contexto da profecia e está de acordo com a interpretação inspirada apresentada no Novo Testamento.

Portanto, não existe fundamento consistente para afirmar que Mateus, Lucas ou os tradutores da Bíblia cometeram um erro. Pelo contrário, todas as evidências apontam que compreenderam corretamente o propósito da profecia de Isaías: anunciar, de forma antecipada, o nascimento miraculoso do Emanuel, o Deus conosco.

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